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Nossa exposição, A Casa Paulista, marca a abertura da nova galeria da Bossa em São Paulo. O projeto é um gesto dedicado à cidade e às figuras que moldaram seus interiores modernos. Para esta mostra inaugural, voltamos o olhar às empresas que ajudaram a definir a São Paulo dos anos 50: Branco & Preto e Forma S.A. posicionam-se como pioneiras fundamentais na construção dessa estética moderna.
A exposição toma emprestado o título da obra homônima de Carlos Lemos, mas propõe uma nova perspectiva sob o olhar dos interiores. Enquanto o trabalho de Lemos — arquiteto fundamental para a compreensão do modernismo brasileiro — analisa as residências coloniais e seus costumes, nossa mostra sugere uma outra "Casa Paulista". Esta nova moradia não se limitava às casas de rua que estamparam as capas das revistas da época, mas voltava-se também aos apartamentos modernos e compactos situados no então recém-inaugurado bairro dos Jardins, assim como ao epicentro cultural do país: o Centro de São Paulo.
Para essas novas formas de viver que surgiam na São Paulo dos anos 50, era necessária uma nova decoração que acompanhasse o rigor e a liberdade da estética em ascensão. Até então, o mobiliário ainda importava estilos da França e da Inglaterra que já não cabiam na efervescente produção arquitetônica brasileira. É nesse cenário que surge, em 1948, a Móveis Artesanal, fruto da união entre Carlo Hauner e Ernesto Wolf — este último, um profundo entusiasta das artes e célebre colecionador de vidros.
Com a chegada de Martin Eisler e a inauguração da Galeria Artesanal, impulsionada pela visão de Georgia Hauner, um conceito inovador de expografia foi introduzido: em vez de simples vitrines, a Galeria criava ambientações completas, integrando o mobiliário à arte e transformando a experiência de consumo em um manifesto de estilo de vida.
O foco da mostra recai, portanto, sobre as duas empresas que consolidaram essa ruptura: a Branco & Preto, fundada em 1952 pelos arquitetos Miguel Forte, Jacob Ruchti, Plínio Croce, Roberto Aflalo, Carlos Millan e Chen Y Hwa; e a Forma Móveis e Objetos de Arte, estabelecida em 1955. A trajetória da Forma revela uma rede sofisticada de colaborações que se entrelaça com personagens fundamentais como Sergio Rodrigues e Lina Bo Bardi.
Ao apresentar quase 50 trabalhos históricos, a exposição oferece um panorama essencial da cena e do momento vivido no auge da produção modernista paulista. É um convite para observar como o mobiliário e o espaço interno foram determinantes na construção da identidade moderna da cidade.
Isabela Milagre
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BRANCO & PRETO
A Obra Total e a Invenção do Morar Moderno Paulista (1950–1970)
Este documento detalha a trajetória da Branco & Preto, um marco do design moderno brasileiro, consolidando o rigor técnico, o contexto histórico e a materialidade sensorial de sua produção.
1. A Vanguarda Local
No início da década de 50, São Paulo vivia uma efervescência industrial e cultural sem precedentes, marcada pela criação do MASP e da Bienal. Enquanto o ensino oficial da Escola de Engenharia Mackenzie ainda se ancorava no neoclassicismo acadêmico, um grupo de jovens arquitetos — Miguel Forte, Jacob Ruchti, Plínio Croce, Roberto Aflalo, Carlos Millan e Chen Y Hwa — formava uma vanguarda autodidata.
Inspirados pela síntese entre o racionalismo da Bauhaus e o organicismo de Frank Lloyd Wright, esses amigos e vizinhos de escritório decidiram preencher uma lacuna crítica: a inexistência de mobiliário que dialogasse com as plantas livres e as paredes de vidro da arquitetura moderna.2. O Desenho Sem "Prima-Donas"
Inaugurada em 17 de dezembro de 1952, na elegante Rua Vieira de Carvalho, a Branco & Preto não era apenas uma loja, mas um laboratório de design. Ali, o móvel era tratado como uma extensão da arquitetura — a "obra total".
O processo criativo era rigorosamente coletivo. Sem espaço para egos ou "prima-donas", o grupo discutia cada projeto intensamente. O desenho nascia de um "risco" e passava por inúmeras transformações em protótipos de escala real até que a proporção fosse considerada perfeita. Elevava-se, afinava-se ou engrossava-se o traço até que a função dominasse a forma, resultando em peças que, embora racionais, possuíam uma elegância escultórica capaz de serem admiradas de todos os ângulos.
3. A Cultura do Detalhe: Materialidade e Sensorial
A Branco & Preto definiu a identidade do design brasileiro ao articular a nobreza das matérias-primas nacionais com a estética industrial.- A Marcenaria de Precisão: O uso do Jacarandá-da-Bahia, Caviúna e Pau-Marfim era elevado por encaixes em meia-esquadria (45°), demonstrando um rigor construtivo que dispensava adornos.
- O Contraste Moderno: A madeira era frequentemente associada ao ferro tubular, ao mármore Calacata, ao vidro e à então inovadora Fórmica, criando um diálogo entre o calor do artesanal e a assepsia do industrial.
- Estofaria e Têxteis: Rejeitando a espuma e as molas sintéticas, o grupo utilizava crina e pluma, garantindo uma estrutura perene. Os tecidos, exclusivos do Lanifício Fileppo, em gabardine de lã, possuíam um "brilho seco" e padronagens abstratas que se tornaram a assinatura visual da marca.
4. O Viver Moderno
A loja funcionava como um centro difusor de um novo estilo de vida. Em uma cidade que aspirava à verticalização e ao cosmopolitismo, os ambientes da Branco & Preto ensinavam o cliente a habitar espaços abertos. Móveis como as icônicas estantes vazadas e biombos tornaram-se elementos fundamentais na organização de residências célebres, como a de Oscar Americano no Morumbi. Nestes projetos, onde a transparência do vidro exigia leveza, as peças da B&P atuavam como articuladores espaciais, garantindo a continuidade visual e a fluidez entre o interior e o exterior.5. O Legado
A trajetória da Branco & Preto encerrou-se em 1970, não por falta de prestígio, mas pela própria natureza de sua excelência. O sucesso estrondoso dos escritórios individuais dos sócios, somado à morte prematura de Carlos Millan em 1964 e à escassez de mão de obra capaz de manter o rigor artesanal exigido, tornou a escala comercial insustentável.
O encerramento marcou a transição de um empreendimento comercial para um mito do design. A Branco & Preto consolidou a arquitetura de interiores como disciplina profissional no Brasil, deixando um legado de peças que hoje são testemunhos de ideias inovadoras, objetos com um profundo significado cultural para o design e para a história da cidade e da arquitetura brasileira. Os móveis são provas vivas de um tempo dessa história. -
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Branco & PretoM1 Armchairs (2 units - pair), 1953 -
Branco & PretoR3 Armchair (2 units - pair), 1952 -
Branco & Preto"Duas Cores" Coffee Table, c. 1952 -
Branco & PretoCane Chairs (8 units), 1952 -
Branco & PretoSide Table, 1950s -
Branco & PretoSide Table (2 units), 1950s -
Branco & PretoSide Table (2 units), 1950s -
Branco & PretoSide Table, 1950s -
Branco & PretoMF5 Armchairs (2 units - pair), 1953 -
Branco & PretoR3 Armchair, 1952 -
Branco & PretoDining Table, 1950s
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FORMA S.A.
A Sistematização do Design e a Conexão Internacional (1949–2005)
Este documento analisa a trajetória da Forma S.A., empresa que consolidou a transição do mobiliário artesanal para a escala industrial no Brasil, articulando o rigor europeu à produção seriada e ao licenciamento global.
1. O Prelúdio: Da Oficina Pau Brasil à Móveis Artesanal
A gênese da Forma remonta a 1949, com a chegada do arquiteto e artista italiano Carlo Hauner ao Brasil. Hauner adquiriu o espólio e o maquinário da oficina Pau Brasil — iniciativa seminal de Lina Bo Bardi e Giancarlo Palanti —, transformando-a, em 1950, na Móveis Artesanal.
Sediada no Itaim Bibi, a Artesanal funcionou como um laboratório de transição. Sob a influência de Hauner e, posteriormente, do arquiteto austríaco Martin Eisler, a empresa começou a afastar-se da marcenaria de peça única em favor de uma estética racionalista, capaz de mobiliar a verticalização acelerada de São Paulo. Foi neste ambiente que nomes como Sérgio Rodrigues iniciaram suas trajetórias, confrontando o rigor técnico europeu com a busca por uma identidade brasileira.2. A Invenção da "Forma"
Em 1954, a entrada do investidor e colecionador Ernesto Wolf marcou o amadurecimento estratégico do grupo. Compreendendo que o termo "Artesanal" limitava a penetração no crescente mercado corporativo, Wolf sugeriu o nome Forma. A nova marca evocava não apenas a pureza geométrica, mas a intenção de padronizar o design moderno.
Diferente da Branco & Preto, que priorizava a "obra total" e o controle artesanal do arquiteto, a Forma operava na lógica do componente. O design de Eisler e Hauner baseava-se na modularidade e na versatilidade: estruturas que podiam ser replicadas e combinadas, permitindo que o bom desenho alcançasse uma escala industrial sem precedentes no país.3. Materialidade e Técnica: A Síntese de Eisler e Hauner
A identidade visual da Forma foi definida pelo diálogo entre a transparência do metal e a densidade da madeira nobre.- O Rigor Estrutural: O uso de ferragens esbeltas e barras metálicas pintadas de preto permitiu que o mobiliário ganhasse leveza visual, "flutuando" nos novos apartamentos de vidro. A Poltrona Costela, de Martin Eisler, tornou-se o emblema desta era: uma estrutura metálica que sustenta ripas de jacarandá, unindo ergonomia a uma estética escultórica e seriada.
- O Selo Knoll: Em 1959, a Forma consolidou sua hegemonia técnica ao tornar-se licenciada exclusiva da Knoll International. A produção nacional de peças de Saarinen, Bertoia e Mies van der Rohe exigiu que a empresa sistematizasse processos de controle de qualidade internacionais, elevando o patamar de toda a indústria moveleira brasileira.
4. A Cenografia do Estilo de Vida
A Forma revolucionou o varejo de design através de uma curadoria espacial rigorosa. Sob a direção de Georgia Hauner, as lojas na Rua Barão de Itapetininga e na Rua Augusta operavam como extensões de museus. As vitrines eram instalações cenográficas que educavam o público, integrando o móvel à arte moderna e a objetos de adorno selecionados. Para o paulistano cosmopolita, a Forma não fornecia apenas mobília, mas o vocabulário estético completo para habitar a modernidade.5. O Legado: Do Autoral ao Industrial
O encerramento do ciclo original da Forma, após a morte de Martin Eisler em 1977 e a transição para o grupo Giroflex, assinalou a vitória definitiva da escala industrial sobre o design de autor.
Enquanto a Branco & Preto permaneceu como o bastião da exclusividade arquitetônica paulista, a Forma deixou como legado a prova de que o design de alto nível poderia ser sistematizado e internacionalizado. Suas peças permanecem como testemunhos de um período em que a indústria brasileira articulou, com precisão técnica e elegância, o encontro entre a artesania do passado e o rigor do futuro. -
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Carlo Hauner & Martin EislerArmchair, 1955 -
Carlo Hauner and Martin EislerRare Forma Sofa, 1956 -
Carlo Hauner and Martin EislerCoffee and Dining Table, 1955 -
Carlo Hauner and Martin EislerSlatted Bench, 1955 -
Carlo Hauner and Martin EislerRosewood Credenza, c. 1954 -
Carlo Hauner and Martin EislerArmchair (2 units - pair), c. 1954 -
Carlo Hauner and Martin EislerRosewood Chair, 1950s -
Carlo Hauner and Martin EislerConcha Armchair, 1953 -
Carlo Hauner and Martin EislerDesk, c. 1950 -
Forma S.A. Móveis e Objetos de ArteFloor Lamp, 1950s -
Forma S.A. Móveis e Objetos de ArteVase, 1950s -
Carlo Hauner and Martin EislerExpandable Dining Table, 1950s -
Carlo Hauner and Martin EislerArmchair, 1953 -
Carlo Hauner and Martin EislerArmchair, 1955 -
Carlo Hauner and Martin EislerRecord Player, 1950s -
Carlo Hauner and Martin EislerConcha Armchair (pair), 1953 -
Carlo Hauner & Martin EislerBar Cart, c. 1956 -
Carlo Hauner and Martin EislerChaise, c. 1954 -
Carlo Hauner and Martin EislerTable Lamp, c. 1950 -
Carlo Hauner and Martin EislerStool (5 units), c. 1954 -
Carlo HaunerChair, 1950 -
Susi Aczel and Martin EislerRound coffee table, 1953 -
Carlo Hauner & Martin EislerBar cart , c. 1960 -
Carlo Hauner and Martin EislerCoffee and Dining Table, 1955 -
Carlo Hauner and Martin EislerGame Table, 1950s -
Carlo Hauner and Martin EislerArmchair (Pair), 1950s -
Carlo Hauner and Martin EislerReversivel, c. 1950 -
Susi Aczel and Martin EislerRound Coffee Table, 1953 -
Carlo Hauner and Martin EislerSquare Side Table, c. 1950 -
Carlo Hauner and Martin EislerArmchair, c. 1955 -
Carlo Hauner and Martin EislerCane Chair (4 units), 1954/1956 -
Carlo Hauner and Martin EislerRosewood Credenza, c. 1954 -
Carlo Hauner & Martin EislerDressing Table, 1960s -
Florence Knoll and Martin EislerDining Chair (6 units), 1960s -
Carlo Hauner and Martin EislerBookshelf, c. 1955 -
Carlo Hauner and Martin EislerCostela Armchair (Pair), 1953 -
Carlo Hauner and Martin EislerCostela Armchair, 1953 -
Carlo Hauner & Martin EislerForma Coffee Table , 1960s -
Carlo Hauner and Martin EislerDining Chair (2 units), c. 1954 -
Carlo Hauner and Martin EislerDining Chair (6 units), c. 1954
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EM DIÁLOGO
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Lina Bo BardiChair MASP 7th April, 1947 -
Lina Bo Bardi and Giancarlo PalantiZig Zag Armchair, 1948 -
Percival LaferMP-81 Sofa , 1970 -
Beni RugsBoundaries, 2025 -
Beni RugsDeco, 2026 -
Beni RugsMicrocheck, 2026 -
Celina DecoraçõesSquared Mirror, 1960s -
Francesco ScapinelliMirror and wall cabinet, 1960s -
LightingTable Lamp (pair), 1960s -
LightingTable Lamp (pair), 1960s -
UnknownTable Lamp -
Gaetano SciolariTable Lamp, 1960s -
Carlo MontaltoWall Lamp (2 units) -
Lustres PelotasWall Lamp (2units), 1960s -
Lustres PelotasWall Lamp (2units), 1960s -
Pablo PicassoPicasso Plate, 1960s -
UnknownPorcelain Tiger, 1960s -
UnknownMetal Lobster, 1960s -
UnknownGlass Jar, 1960s -
Unknown ArtistGlass Jar, 1960s -
UnknownCeramic Jar, 1960s -
Unknown ArtistFiga -
Unknown ArtistFiga -
Unknown ArtistJug, c. 1900 -
Unknown ArtistJug, c. 1900 -
Unknown ArtistJug -
Unknown ArtistJug, c. 1900 -
Unknown ArtistJug -
Unknown ArtistJug -
Unknown ArtistJug
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